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5 de jul. de 2014

Sr. Wilson

Outro dia estava no supermercado fazendo compras para a semana, habito que se tornou comum depois do casamento. Minha esposa e eu gostamos muito do ritual das compras e fazemos com certo prazer, sempre aos fins de semana. Andar por entre os corredores observando preços e produtos nas mais variadas cores tudo exposto nas gôndolas não é de todo o ruim, mas ainda assim sei que há muita gente que não gosta. Estava no setor das frutas, verduras e legumes quando me deparei com um antigo conhecido e que há muito tempo não encontrava. Na verdade, o vi algumas vezes no trânsito, mas nada que fosse tão próximo quanto o ocorrido no sábado. Indeciso entre o tomate Carmem ou o Débora, optei pelo primeiro e, nesse instante, essa pessoa muito especial para a minha formação – ainda que não saiba disso – começou a escolher a fruta do meu lado.

Em 1992, eu cursava Edificações no Chanceler Raul Fernandes. Logo nos primeiros meses descobri que não tinha muita envergadura para o assunto. Confesso que tentei, porém não havia jeito de me envolver com o curso. Assistia, às vezes, a primeira e a segunda aula e no intervalo ia para a biblioteca onde ficava até a hora da saída. Foram três tentativas frustradas até perceber que não pertencia a área das Exatas: Edificações, Contabilidade e Processamento de Dados. Entrava, via algumas aulas e descobria que não era nada daquilo que queria. Assim foram três anos em que passava a maior parte do meu tempo naquele templo de livros. Posso afirmar que aprendi muito mais nesse período em que eu passei horas inteiras dentro da biblioteca, fuçando os livros, do que propriamente o tempo que passei (ainda que tenha sido muito pouco) dentro da sala de aula.

A biblioteca não era muito grande se comparada as que eu viria a conhecer depois, mas, recordando agora, me parecia muito grande. Ler sempre foi uma das minhas maiores paixões e naquele local descobri muita coisa interessante. Coisas que contribuíram para minha formação, ainda que não tivesse consciência disso à época. Lia de tudo e de forma muito desconexa, apenas com alguma orientação do senhor Wilson. Hermann Hesse, Aldous Huxley, Paulo Coelho, George Orwell, Roberto Shinyashiki, Drummond, Pessoa, entre outros, foram autores que descobri ali. Alguns estão comigo até hoje, outros se perderam durante a trajetória. Lembro que foi nessa época que reli Alice no País das Maravilhas e também alguns daquela série O Autor por Ele Mesmo, da Martin Claret. Tinha um do Raul Seixas com frases de efeito destacadas com as quais eu gostava de ficar refletindo. Havia acabado de entrar em contato com a produção musical do Maluco Beleza. Sua morte ainda era recente e tudo a seu respeito me interessava muito naquele momento.

Deslizando o dedo indicador pelas lombadas dos livros, seguia garimpando algo novo – ainda que tudo fosse muito novo – ou talvez algo que fizesse parte do meu parco repertório de conhecimento. Aquele mundo paralelo à escola era o que de mais interessante um garoto de quinze anos como eu poderia querer. O que eu não locava para ler em casa, ou na hora do almoço no trabalho, lia ali mesmo. O silêncio da biblioteca sempre me foi ensurdecedor, tantas coisas para serem ditas em tão pouco tempo. Quanto conhecimento querendo saltar para fora das páginas em busca de alguma atenção. Senhor Wilson era quem tomava conta da biblioteca. Nunca soube qual a sua função específica, o que sei é que sempre estava lá anotando empréstimos e sugerindo algumas leituras.

Quando começou a escolher o tomate do meu lado, no mercado, olhei esperando que talvez me reconhecesse, mas não foi o que aconteceu. Disse: “Olá senhor Wilson, tudo bem?” Ele ainda que não me reconhecesse, respondeu: “Oi, tudo bem. Você me conhece da escola, não é mesmo?”. “Sim” – rebati. Em seguida, silêncio entre pessoas e tomates. Tive certeza que não se lembrou de mim, mesmo porque muita gente deve ter passado por aquela biblioteca. Terminei de separar os tomates, comentei o ocorrido com minha esposa que voltava da seção dos frios e retornamos para casa satisfeitos com os tomates e certos da importância dos livros e de pessoas como o senhor Wilson para a formação de cidadãos.

Artigo publicado parcialmente na quarta-feira (03) na edição impressa do Jornal Cidade.
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21 de jun. de 2014

Nota sobre Cinema n° 1

O cinema teve início no final do século XIX, na França, quando os irmãos Louis e Auguste Lumière realizaram a primeira exibição do filme L'Arrivée d'un Train à La Ciotat (A chegada do trem na estação). A película tem apenas cinquenta segundos de duração, porém é a grande responsável e o ponto de partida para tudo que viria depois em matéria de cinema. Depois dessa curta exibição muita coisa vem sendo produzida no cinema, coisas boas e coisas ruins. A produção atual, por exemplo, é muito vasta e ótimos longas-metragens são realizados, mas, infelizmente, os jovens são sempre atraídos por aquilo que não tem qualidade. Tenho tentado transmitir para alguns alunos que o contato com os mais diversos tipos de filmes é muito bom, no entanto, é preciso estar atento para não cair na armadilha do consumo.

Os filmes que se tornaram eternos – como Viagem à lua, O Nascimento de uma nação, O encouraçado Potekim, Tempos modernos, O mágico de Oz, E o vento levou, Cidadão Kane, Casablanca, Cantando na chuva, Um corpo que cai, Quanto mais quente melhor, Janela indiscreta, A doce vida, Psicose, A aventura, O poderoso chefão, Taxi driver, Laranja mecânica, para citar somente alguns de memória – são clássicos porque carregam em seus roteiros e em suas imagens muito mais que somente entretenimento, algo que serve para formar cidadãos e, creio, encaminhar para a vida.

Está mais do que provado que todos os filmes acima transmitem valores de toda a ordem e, sem dúvida, foram, são e serão essenciais para o ser humano como forma de suprir o eterno abismo existencial entre o pensar e o agir. Assisti a esses filmes, que chegaram ao meu conhecimento através de recomendações ou de listas em revistas especializadas, quando já estava quase na fase adulta alcançando a maioridade. Lembro que os vi com a curiosidade cinematográfica de uma criança diante do mundo lá fora, gigante, distante e desconhecido. Por isso, posso garantir que há parte de todos os personagens ali existentes, suas histórias e suas falas em minha formação intelectual.

Mas deixando os grandes clássicos de lado, devo confessar, porém, que nada foi mais significativo e marcante do que os filmes que vi quando ainda adolescente e que chegavam até mim pela locadora da Sandra ou porque eram exibidos pelas redes de tevê aberta. Percebo, olhando pelo retrovisor da vida – que deixa tudo distante, porém bem mais nítido – que aquelas produções auxiliaram a cultivar o que viria a ser meu caráter, bem como ajudaram a perceber com algum discernimento o que é e o que não é adequado para viver uma boa vida. Clube dos cinco, Conta comigo, Te pego lá fora e Curtindo a vida adoidado são alguns bons exemplos de filmes aparentemente sem muita pretensão, mas que deixaram valores impressos em quem os assistiu. Valores como companheirismo, amizade, respeito e até rebeldia. Sim, porque um pouco de rebeldia nunca fez mal a ninguém.

Entretanto, os filmes que vejo atualmente (percebam, há muitas exceções, contudo os que os jovens mais estão expostos – até porque são ostensivamente sequenciados – não acrescentam nada a não ser o desejo de consumo, seja material, sexual, ou de qualquer outra ordem) demonstram um desinteresse com os valores que poderiam colaborar para a formação do público jovem. A franquia Velozes e Furiosos, para citar somente um exemplo, não transmite nenhum valor a não ser o do dinheiro, com o qual se pode comprar carros caros e superpotentes e (hipoteticamente) mulheres fáceis e sensuais. Como entretenimento para pessoas já desenvolvidas o filme é uma opção medíocre de entretenimento. Para adolescentes em formação, repito, não acrescenta absolutamente nada!

Artigo publicado na quinta-feira (19) na edição impressa do Jornal Regional.
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13 de jun. de 2014

E se?

E se os hospitais públicos fossem todos bem equipados, se não faltassem médicos e enfermeiros, se os médicos e enfermeiros fossem bem remunerados e não precisassem exceder a carga horária de trabalho para dar conta da demanda, se os usuários não tivessem que esperar por horas na fila por uma vaga que não chega nunca deitados em macas abandonadas nos corredores ou, não pouco comum, no chão frio dos corredores gélidos e cinzas dos prontos atendimentos. E se o Ministério da Saúde deixasse de reconhecer, através de notas escritas pela assessoria, que há problemas no setor e começasse a promover melhorias significativas com o dinheiro dos impostos que pagamos religiosamente.

E se, da mesma forma, as escolas públicas dispusessem de equipamentos da mais alta qualidade que ajudassem os professores a prender a atenção dos alunos no intuito de promover o conhecimento. E se os professores ainda pudessem sentir orgulho da mais bela das profissões, por serem valorizados enquanto educadores e bem remunerados como profissionais da educação. Se o ensino de qualidade realmente chegasse aos rincões do país para que atuasse como modificador e pudesse transformar de forma verdadeira a vida das pessoas, que estão cada vez mais aflitas e ansiosas por mudanças sinceras e significativas, não apenas como peça de publicidade.

E se os políticos tentassem, ainda que com muito custo, reconquistar a confiança do povo e, acima de tudo, promovessem o bem estar social ao invés de viver tentando implantar planos de poder e de eternização de cargos públicos. E se os nossos representantes olhassem para a beira do caos em que se encontra o Brasil que depois duas décadas de estabilidade volta a figurar no ranking dos países com as maiores taxas de inflação do mundo e os preços — desde o tomate às carnes, do combustível aos planos de saúde — aumentam vertiginosamente. E se os governantes deixassem de confiar que podem sempre se posicionar ilesos acima da ética e da moral para alcançar seus objetivos como que acreditando que os fins justificam os meios.

E se nós, enquanto eleitores, prestássemos mais atenção no que nossos representantes políticos fazem com o direito de representação que os entregamos através do voto e começássemos, assim, a descartar a possibilidade de que essas pessoas se eternizem nos cargos e transformem a política em profissão. A vontade de ocupar um cargo público deve ser precedida não somente pela aspiração de ajudar os semelhantes (o que já seria um grande avanço se dermos uma olhada na situação brasileira atual), mas também por uma vocação que deve estar intrínseca ao pretendente para que não caia na lógica da conformidade com os interesses de grupos privados, do corporativismo, da tecnocracia e da corrupção. É preciso observar e estar sempre atento!

Se todas essas colocações expressas anteriormente precedidas por conjunções subordinativas condicionais passassem do plano das aspirações para o plano das ações, talvez, o povo brasileiro (para usar uma expressão cínica e já muito gasta pelos políticos) poderia comemorar os jogos da Copa do Mundo com maior intensidade. Talvez se vivêssemos em outro Brasil, com maior distribuição de renda e menor desigualdade social veríamos mais ruas pintadas com as cores verde e amarela. As bandeiras já estariam penduradas nas sacadas dos apartamentos e as antenas dos carros todas enfeitadas com fitas coloridas, como sempre aconteceu. De qualquer forma, no entanto, entretanto e, portanto, a gente vai continuar torcendo pelo Brasil, torcendo para que seja, verdadeiramente, um país de todos. Boa Copa a todos!

Artigo publicado na quarta-feira (11) na edição impressa do Jornal Cidade.
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6 de jun. de 2014

Do outro lado da linha

Por entre ruas que cortam avenidas, carros se proliferam aos montes. As bicicletas vão perdendo espaço para as motos no imaginário das crianças que, aliás, crescem rápido e logo se tornam pais. Os campos de futebol sem grama, apelidados por minha geração de rapadões, viraram casas que depois foram demolidas para dar à luz aos grandes prédios comerciais. As árvores foram sendo substituídas por outras de menor porte, mas ainda é possível se refrescar à sombra de algumas poucas sibipirunas que restam e resistem fortes abraçadas aos fios de alta tensão. As escolas continuam as mesmas, porém agora com outros professores, que continuam educando e transmitindo valores as crianças do bairro. A brincadeira na rua ficou mais perigosa devido ao trânsito, mas as pipas não deixaram de enfeitar o céu azul do mês de agosto. Os doces do carrinho do Vô, que ficava em frente ao Antônio Sebastião da Silva, foram substituídos pelos do 1,99, assim como a casquinha que era vendida ali na esquina e os gelinhos de groselha azul da Dona Regina, mas ainda assim continuam com o mesmo sabor de infância bem vivida.

O que antes era o fim do município agora é o centro de outra cidade. Novos bairros adjacentes foram sendo criados e outras pessoas de outros locais foram chegando. A mistura de raças, crenças e ambições foi tornando o Cervezão um lugar diferenciado, porém semelhante às grandes periferias de todo o Brasil com inúmeras possibilidades e enormes contradições. Aos poucos, o bairro – que chegou a ser bastante discriminado, mas que vem paulatinamente adquirindo outro status devido ao seu emergente poder político e econômico – se integra ao resto da cidade, pois passou a gerar a sua própria economia e também a ter um peso significativo nas eleições municipais. Aos poucos, a linha de trem, que era um divisor real e palpável e que separava o Grande Cervezão do resto da cidade, vai se tornando invisível quase que se apagando por completo do imaginário dos que aqui nasceram, moram ou foram criados.

O pontilhão, a Lagoa Seca, as quadras do Boa Esperança, a Avenida M-23, a Avenida M-25, a Rua M-8, a Rua M-12, a Estrada de Brotas, a erosão, a feira de domingo, os bares, as igrejas são patrimônio desse universo paralelo que se tornou o Cervezão. Ainda que muitos passos dados nessas “longas ruas distantes de subúrbio, velhas e compridas ruas não violadas pelos prefeitos”, tenham ficado para trás é certo que outros passos serão dados no intuito de seguir construindo a história desse bairro querido e odiado, que desde sempre gerou e vai continuar gerando uma mescla de sentimentos absortos. Para quem nasceu aqui e assistiu a tudo ser construído e modificado – como, por exemplo, o corte dos últimos eucaliptos, as ruas serem asfaltadas e se tornarem de mão única, a urbanização, a chegada do Trólebus, a expansão do comércio, a partida do Trólebus, a proliferação dos semáforos, a chegada das agências bancárias, da internet e das tevês a cabo – só existe uma palavra para exprimir o sentimento por esse local: contentamento.

Tudo no Cervezão é diferente. Sua origem ainda é meio confusa e controversa, mas o que se sabe é que o loteamento teve início nos anos 1970. Várias histórias são contadas a esse respeito e dois a cada dois moradores tradicionais dizem ter sido os primeiros a chegar e que “ali, logo ali”, apontando com o indicador, “era só pasto e eucalipto”, mas isso não importa, pois o que importa mesmo é que a história segue seu curso e de certa forma todos são autores dessa biografia. Quem chegou primeiro ou quem deu início a isso ou aquilo não conta, pois o que conta é o anseio desse povo que, no intuito de construir um lar, acabou edificando o bairro (perdoe a minha parcialidade) mais importante da cidade. Um bairro que estará sempre nos corações e mentes de cada um dos que passaram por aqui e tiveram sua história pessoal relacionada com a desse gigante de Rio Claro. A pessoa pode, por uma infinidade de motivos, sair do Cervezão, mas uma coisa é certa: o Cervezão nunca sai de dentro da pessoa.

Artigo publicado na sexta-feira (06) no caderno 'Especial Cervezão' da edição impressa do Jornal Regional.


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30 de mai. de 2014

E o galo cantou

Acredito que os amigos leitores já devem ter visto ou ouvido falar alguma coisa sobre a entrevista exibida pela tevê portuguesa RTP há exatamente um mês na qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou peremptório desconhecer os condenados no processo do mensalão. Disse: “Não se trata de gente da minha confiança. E eu também não vou ficar discutindo a decisão da Suprema Corte. O que eu acho é que essa história vai ser recontada”.

João Gandóla, nosso pensador aqui do bar, está inconformado com a afirmação do ex-presidente que, a seu ver, negando os companheiros, de certa forma, está negando a si mesmo. Ponderou assaz contundente: “um homem que esteve lado a lado com Dirceu, Genuíno e Delúbio durante a maior parte da vida e que, juntos, construíram um partido que conseguiu aboletar a ideia de mudança para uma parte significativa da sociedade, negar que existam vínculos é muita falta de consideração! Não só com os companheiros de uma vida inteira, mas com todo o povo brasileiro!”.

“Dirceu, Genuíno e Delúbio não eram de sua confiança?”, questionou espantado o Toninho que fechava a conta de Zébedeu e ouvia a conversa de orelhada. “Como assim? Desde a sua fundação, no início da década de 1980, o PT contava com a presença de Zé Dirceu que, depois que desfez a cirurgia plástica, passou a participar das atividades do partido. Da mesma forma, Genuíno que desde que foi anistiado em 1979, também participou da sua fundação e foi deputado federal pela legenda por duas décadas. E esse Delúbio? O Pimenta me contou que, antes de ser o tesoureiro do PT, era sindicalista e tesoureiro nacional da CUT, além de ter sido coordenador das campanhas presidenciais de Lula tanto em 1989 quanto 1998”.

O que causa estranhamento até mesmo nas pessoas que simpatizam com Lula e são seus eleitores convictos (ainda há alguns por aqui) é o porquê de o ex-presidente ter feito tal afirmação. Infelizmente, desde que assumiu o poder, o partido vem perdendo pessoas que poderiam em muito somar para aquele processo de transformação vendido na campanha eleitoral de 2002. Baixas significativas como a de Heloísa Helena e Luciana Genro, denominadas, à época, como “radicais do partido”. Sem contar Cristovam Buarque, um homem preocupado com a educação brasileira, demitido por Lula via telefone em 2004.

Esse pessoal aqui do bar anda mesmo antenado e arguto quando o assunto é política. O acontecido na tevê portuguesa revela que a ordem no momento é negar ou não tocar no assunto mensalão durante o período de eleição, pois pode respingar na candidatura de Dilma à reeleição, que, aliás, sofre quedas significativas, segundo as mais recentes pesquisas. Não bastasse a tentativa de calar as manifestações contra a Copa – que podem ou não continuar acontecendo – os dirigentes políticos e, principalmente de Lula, adotaram a negação como fórmula. Negar a tudo e a todos, ou seja, negar, negar, negar. Como fez Pedro, negar.

Artigo publicado na quarta-feira (28) na edição impressa do Jornal Cidade.
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17 de mai. de 2014

E a educação?

Não é de hoje que a educação pública está – para ser bastante otimista – uma calamidade. As autoridades não aparentam estar preocupadas com o conhecimento adquirido pelos alunos, mas sim com a “universalização” do ensino. Não bastasse o descaso por parte do governo parece que – ainda que inconscientemente – os alunos estão se espelhando na máxima “Eu cheguei à Presidência mesmo sem ter um curso superior”, ou na fala de MC Lon que, em entrevista recente ao jornalista Roberto Cabrini, do Conexão Repórter, disparou: “Eu construí essa casa no valor de 800 mil reais e não precisei fazer faculdade”.

Mas isso não é tudo, pois outras coisas preocupam quando o assunto é Educação. Recentemente, alunos da rede pública da cidade de Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte, receberam cadernos com erros de escrita no Hino Nacional. Alunos da cidade de Jundiaí também foram contemplados com erros no material de geografia, dessa vez, pasmem, com a ausência do Distrito Federal no mapa do Brasil. Teve também o caso dos uniformes do “Centro de Encino Médio 01”, distribuídos aos alunos daquela escola.

Além de tudo isso, o que impressiona é que a garotada também não demonstra muito interesse em aprender e se dedicar aos estudos e não percebe que está sendo preparada para a ignorância e que ignorantes em um país de governantes déspotas que conta ainda com uma música de péssima qualidade serve apenas como massa de manobra. Atualmente, os jovens estão aficionados com essa onda da ostentação que, como bem definiu meu amigo Pavão, nada mais é que “a vontade de mostrar aquilo que você não precisa e que foi comprado (?) com um dinheiro que você não tem para alguém que você não dá à mínima”.

Domingo passado no bar outro amigo disse estar preocupado com o que seus filhos estão ouvindo e, sobretudo, muito atento com o que andam fazendo na escola. Marinho é gente boa, um típico trabalhador suburbano com carteira assinada e que não deixa faltar nada para a família que construiu junto com a esposa. Sua maior preocupação é com a educação dos meninos, um com 12 e outro com 14 anos. Ainda que tolhido de muitas oportunidades na vida, Marinho acha importante adquirir uma boa educação para que se possa vislumbrar um bom lugar no futuro.

- É esse tal de funk ostentação! – esbravejou o meu amigo tentando encontrar alguma melodia na letra: “Contando os plaque de 100, dentro de um Citroën, ai nóis convida porque sabe que elas vêm, de transporte nóis tá bem, de Hornet ou 1100, Kawasaki, tem Bandit, RR tem também” – sucesso (?) do MC Guime. Indignado ainda questionou: “em que isso pode contribuir para a formação intelectual dos meus meninos? Eles ainda não sabem tabuada e desconhecem a forma correta de escrever algumas palavras!”.

O funk enquanto entretenimento musical pode até ser dançante e causar certo furor, mas como mensagem não transmite nada valor para a juventude em suas letras tétricas e colaboram (com intenção ou não, não sei) para o descaso do governo com a educação. Conheço Marinho há muito tempo, desde a época em que tocávamos Raul em volta da fogueira e sei que sua repulsa não se deve apenas ao comum e compreensível conflito de gerações, mas sim a uma indignação com essa tamanha inversão de valores. Não há nada de rebeldia nas letras de funk, apenas o ter se sobrepondo ao ser. Enquanto isso, os jovens sem a instrução necessária, não percebem o estratagema e o ensino no Brasil vai se tornando, cada vez mais, arma nas mãos de “músicos” desafinados e políticos mal intencionados.

Artigo publicado na quarta-feira (14) na edição impressa do Jornal Cidade.
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10 de mai. de 2014

Jair Rodrigues chega ao céu

Lá no céu, Elis Regina acorda bem cedinho. Nesta quinta-feira, porém se levantou mais cedo do que de costume. Depois de tomar uma xícara de café e de fumar um cigarro olhando para o horizonte, saiu andando pelas nuvens observando as flores no jardim enquanto os pássaros gorjeiam a melodia de A Felicidade. Mais adiante, é possível observar dois cães brincando de correr no gramado verde e ainda úmido com o orvalho da madrugada em uma quase dança cadenciada e harmoniosa. São Zigue e Zague, dois vira-latas que vivem próximo à casa de Wilson Simonal.

Elis está ansiosa, talvez tanto quanto no dia da estreia de O fino da Bossa em julho de 1964, pois hoje é uma data muito especial. Caminha mais um pouco e atravessa uma pequena ponte sobre um riacho de águas cristalinas em que é possível ver os peixes nadando muito rápido, como em um arrastão. Logo mais ao alto, sobre uma montanha de nuvens branquinhas, há uma casinha amarela com duas janelas. Elis chega ao pé da porta e diz: - Baden, você está ai? Vamos que é hoje!

Baden Powell, após verificar quem era e alisar o bigode com o polegar e o indicador, pega o violão e toca o tema de Canto de Ossanha somente para aquecer os dedos e, em seguida, ambos seguem por entre as nuvens até a recepção, local em que os anjos estão posicionados em um semicírculo, à esquerda de uma porta que leva a uma espécie anfiteatro. Baden, ao violão, ensaia alguns acordes dissonantes enquanto Elis toma um pouco de água para lubrificar a voz.

Nisso, chega conduzido por um anjo serafim, Jair Rodrigues que é recebido pelos colegas ao som de Disparada. Ele se anima e, com seu sorriso largo e sua voz inconfundível, inicia um dueto celestial com a amiga de tantos anos enquanto Baden executa o seu também inconfundível violão. Na hora do refrão o coral incrementa o encontro musical cantando em uníssono “Na boiada já fui boi, mas um dia me montei / Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse...”. Foi tudo muito lindo.

Após a recepção calorosa dos amigos, Elis pergunta por Chico e Edu. “Estão muito bem! Cantando e tocando aquelas lindas canções e compondo outras ainda mais belas”, responde Jair que aproveita para perguntar por Vinícius de Moraes. Baden o informa que o poetinha devia estar dormindo, pois na noite anterior tinha tomado um porre, mas que logo viria ao seu encontro. O trio de amigos caminha então por sobre as nuvens olhando aqui para a Terra com os olhos rasos de uma saudade satisfeita. Desde a noite do dia oito de maio uma nova estrela começou a brilhar no céu, logo ali do lado esquerdo do Cruzeiro do Sul. Ela passa a noite inteira piscando na cadência de “Deixa que digam, que pensem, que falem. Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem?”, você já viu?

Artigo publicado na sexta-feira (09) na edição impressa do Jornal Regional.

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